Notas Musicais : Carlos Sider

Postado em 07. dez, 2009 por em Notas Musicais

Estreando o Notas Musicais. Um especial de Fim de ano,com entrevistas aos melhores da cena musical cristã, apresento-lhes um de seus principais cantores e também um compositor de mão cheia,Carlos Sider. Amigo  e parceiro de grandes nomes da boa música cristã como Nelson Bomilcar, Guilherme Kerr, Jorge Rehder (in memoriam),Jorge Camargo, João Alexandre e outros.

NR: Conte-nos  um pouco da história de sua carreira musical e profissional

Carlos Sider: No foco profissional, sempre tive gosto por química e indústria (mais do que por música). Por isso me formei engenheiro químico. E depois segui minhas especializações na área de Administração, algumas aqui no Brasil, outras no exterior.

A música sempre foi parte da minha vida, No início por obrigação (meus pais acharam que eu tinha de estudar piano e assim foi; eu preferia violão, mas acabei só com piano), mais tarde, já tendo meio que me rebelado contra o piano, comecei a me envolver com grupos musicais evangélicos, ligados a minha igreja, daí a ter vontade de compor e começar a compor foram só alguns 2 ou 3 anos. Lá pelos meus 17 ou 18 anos comecei a compor e senti que precisava retomar meu piano para poder me expressar musicalmente. E assim foi… meu pai até pensou que eu estivesse ficando meio maluco, pois voltei a fazer exercícios no piano – justamente aqueles que eu odiava fazer.

NR: Que interessante…. Valeu a pena ter insistido.A música evangélica agradece.

Carlos Sider: Posso dizer que foi assim por toda a minha vida. Parte substancial do meu tempo convivendo com química e profissão (até hoje), e tendo na música algumas coisas: primeiramente uma espécie de chamado de Deus do qual não consigo fugir (ou faço isso ou fica faltando “uma perna”); segundo, porque sempre me serviu como uma câmara de escape e descompressão das pressões e encrencas que enfrento na profissão do dia a dia por conta disso, aliás, penso que minhas músicas são sempre muito pessoais. Já fiz músicas “genéricas”, de adoração comunitária, mas mesmo elas, tem um significado bastante pessoal pra mim. A maior parte delas é meu coração se desmanchando…

NR: Porque se desmanchando? Você acha que compor adoração é um exercício de quebrantamento?

Carlos Sider: Compor é a soma de um monte de exercícios… Sensibilidade – olhos e ouvidos abertos pra ouvir o que Deus manda; disciplina e critério, pra não sair falando e fazendo asneira. E compor com letras que saiam com a sua assinatura é um desafio, pois você se expõe, primeiro diante de Deus e depois diante de todos que ouvem sua canção.

Agora, lamentavelmente, há muitas canções feitas para “adoração” que são compostas como se fossem jingles publicitários. Há inclusive gente que de cristão não tem nada, mas compõe musica evangélica. Onde está a autenticidade disso? Nem me pergunte…

NR: Ouço seu trabalho desde a minha infância, freqüento a assembléia de Deus, e desde pequena fui acostumada a ouvir belos hinos, você acha que o declínio da qualidade musical e das letras que ouvimos hoje no meio evangélico pode ser um reflexo da crise que passa o cristianismo por estas bandas?

Carlos Sider: Difícil falar que é por causa de uma coisa só. Porcariada sempre existiu no meio das coisas boas, seja no meio cristão, seja no meio popular. Hoje o que existe é mais exposição. Agora, que hoje em dia a porcariada tem crescido, isso tem… Reflexo da pouca fé, de um cristianismo superficial? Talvez,mas acho mesmo é que o meio cristão agora já virou um mercado com importância econômica. E aí tem um monte de “espertos” se apresentando pra comer uma fatia desse bolo, e pior, o publico evangélico brasileiro passou a querer consumir “musicas fáceis”. Não falo da técnica musical, mas falo da superficialidade ou da mania de cantar vitória o tempo todo. E ai surgem as enxurradas de porcaria, e quando falo de porcaria falo de letra ruim, de sempre se cantar as mesmas coisas o tempo todo, coisas assim.

NR: Não há um incentivo de falar pra os jovens sobre a necessidade de buscar a presença de Deus, através do louvor que te coloque em contato com ele, e buscar em nossas igrejas compositores bons, que creio que tenha.

Carlos Sider: Vamos por partes: alguém só será motivado a buscar a presença de Deus pela ação de Deus e pelo testemunho de alguém que busca a Deus de verdade. Assim, nossa musica precisa ser reflexo da vida que vivemos com Deus todo santo dia. Não acredito que a musica seja algum fator especial. é uma linguagem como qualquer outra.

NR: Quando você fala de linguagem como qualquer outra você quer dizer que colocamos a música em um nível alto demais, difícil de alcançar ou de fazer?

Carlos Sider: Música é uma forma de expressão que engloba (ou pode englobar) mais do que a simples palavra. Mexe com emoção, é atrativa aos ouvidos de quem gosta dela, mexe com os ânimos do sujeito. é mais difícil fazer musica do que escrever, por certo, o meio evangélico acaba por “endeusar” um pouco demais a musica, e “demonizar” outras formas de arte. Como em tudo, há coisas boas e coisas ruins. Devemos, como ensina Deus, examinar a tudo e reter o que é bom.

NR: Você acha que espiritualizamos demais a música?

Carlos Sider: Espiritualizar a musica é justamente ‘endeusar” a musica. Espiritualidade é a nossa relação espiritual com Deus. Se mexemos com música, ela será mero reflexo do que vivemos com Deus, como será nossa profissão, nossa família, tudo. O difícil é que muita gente quer “parar o carro segurando o ponteiro do velocímetro” – tentar mostrar uma espiritualidade com algum tipo de musica especial, melosa, toda assim ou assado. Isso, francamente, penso que é pura asneira (coisa de “asno” mesmo…).

NR: Fale-me um pouco de como conheceu Guilherme Kerr, João Alexandre, Jorge Camargo e sobre seus trabalhos com eles

Carlos Sider: Cada qual uma historia. O Guilherme era “meu ídolo” (no bom sentido) quando eu era adolescente. Anos mais tarde o conheci pessoalmente e produzimos algo juntos (produções de CDs). Conheci o João através do Guilherme, bem como o Jorge Camargo, o Jorge Rehder, etc. Só conhecia de antes o Bomilcar e o Gerson Ortega, pois éramos da mesma igreja quando moleques (Igreja Batista Paulistana).

NR: O que foi pra você o Fruto da Vida?

Carlos Sider: Estávamos em 1989, o Mensagem já tinha seus 2 trabalhos gravados, mas havia ficado meio que parado, pois os integrantes acabaram indo cada um pra um lado. Eu mesmo havia acabado de voltar de um tempo morando no exterior. Outros membros do grupo- um em Florianópolis, outro no Canadá, etc. Mas bateu a vontade de seguir produzindo, e aí juntamos quem estava por aqui e fizemos o Fruto de Vida. È verdade que tem uma cara de Mensagem que só vendo, mas não achamos bom amarrar com o Mensagem. O Fruto de Vida pra mim marca um tempo em que gravamos muito (o Gui, o João e eu, entre outros). O Fruto de Vida foi gravado literalmente no mesmo estúdio e na mesma época do Adoração Comunitaria, do Estações do Amor, do Missões e Adoração III, a gente até se confundia em lembrar que música era de que disco.

NR: A Igreja batista sempre foi uma igreja com bons músicos e boa musica pra divulgar, ela ainda continua assim , aqui em SP?

Carlos Sider: Não sei… pra nos igreja com bons músicos era a assembléia, principalmente os “metaleiros” (sax, trompete. etc.). Igreja batista sempre deu mais espaço pra musica, mas nem sei se é tudo isso. Eu era da batista. O Gui cresceu presbiteriano. O Camargo era da Quadrangular, O João, da assembléia e depois da Nazareno. O Rehder, metodista. Não creio que tenha uma bandeira melhor ou pior não.

NR: Como era o Rehder?

Carlos Sider: um cara especial, tão especial que Deus chamou mais cedo… A gente era, além de amigo, meio que parente por agregação. Meu irmão Eduardo é casado com a Leo, que é irmã da Marilda, esposa do Rehder. A gente vivia bem próximo. Se não fosse na igreja, eu vivia no consultoria dentário dele.

NR: Como você acha que podemos fazer música de qualidade hj no meio evangélico? È possível um cristianismo criativo?

Carlos Sider: Sempre foi possível fazer musica de qualidade, pois o Deus que move em nós tais desejos movia os mesmos desejos há muito tempo atrás. Mas é preciso pensar o que é “música de qualidade”. Penso que não é musica que vende bastante ou agrada ao publico. Penso que, ministerialmente, musica de qualidade é aquela que agrada a Deus. E pra se ter um cristianismo criativo é fácil. Basta ter bons cristãos – sérios e coerentes com Deus – com criatividade. Mas não se obtém bons cristãos só por serem criativos…

NR: E o agradar é algo difícil não?

Carlos Sider: Agradar é fácil e difícil ao mesmo tempo. É fácil, pois Deus sempre mostra o que Ele quer. Difícil, porque as vezes fazer o que Ele quer é ir contra a maré.

NR: Pra finalizar, agradecemos a entrevista concedida e gostaríamos de saber que conselho você daria aos jovens cristãos de hoje e aos nossos leitores?

Carlos Sider: Viva com Deus o tempo todo. Busque uma vida que ponha um sorriso no rosto de Deus, e tudo andará bem, mesmo que passando pelo vale da sombra da morte, mesmo que enfrentando as duras lutas do bom combate. O resto vem como conseqüência.

Ficou curioso e quer conhecer mais sobre as histórias deste homem de Deus, o Grupo mensagem e ler os artigos que ele publica? Visite: www.carlossider.com.br

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7 Responses to “Notas Musicais : Carlos Sider”

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  2. Aldemir Bispo

    07. dez, 2009

    A iniciativa é louvável. Apesar de eu não ser religioso praticante, tenho admiração pelos verdadeiros critãos que seguem suas crenças com assiduidade.
    Gosto de músicas desse estilo e as ouço quando menos espero; confesso que não as busco. Portanto é de grande valor ter pessoas dedicadas nos oferecendo indicações sempre. Parabéns!

  3. Renato Cavallera

    07. dez, 2009

    Gostei da nova área, já é um lugar que com certeza eu sempre vou estar. E a entrevista foi muito legal, já conhecia ele (apesar de ter esquecido). O ponto mais legal foi essa entrevista mais intima, ou seja, não foi só o envio das perguntas por email e as respostas da mesma forma… detesto isso…

  4. Paulo Cesar Amaral

    07. dez, 2009

    Parabéns pela entrevista – gostei das perguntas que fez. destaque para a resposta:

    “Penso que, ministerialmente, musica de qualidade é aquela que agrada a Deus”

    Para a pergunta:
    “NR: Como você acha que podemos fazer música de qualidade hj no meio evangélico? È possível um cristianismo criativo?”

    E, ao meu ver (não descarto a criatividade citada na entrevista) toda música cristã deve, em todo momento, exaltar a Deus e glorificá-lo pelos seus grandes feitos.

    Que Deus te abençoe e, mais uma vez, parabéns pelo trabalho deste artigo.

  5. Thiago Azevedo

    08. dez, 2009

    Carlos Sider é um excelente artista e com ética de sobra, o que falta para muitos.
    Só não sabia que ele era batista.
    Parabéns pela entrevista, precisamos conhecer essas fontes, como um oásis no meio desse deserto musical que vivemos. Podes fazer uma entrevista também com Stênio Marcius, outro baluarte de nossa música contemporânea.

  6. Maurício

    09. dez, 2009

    Agradeço a entrevistadora porque realmente escolheu um musico de qualidade! Temente a Deus. O Carlos também está de parabéns pelas palavras sábias.

  7. Ana Claudia

    10. dez, 2009

    Parabéns, querida. Muito bom! Vou replicar no Portal Cristianismo Criativo. Bjão

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